Os manguezais são ecossistemas-chave, finitos, sendo considerados verdadeiros celeiros biológicos, que abrigam espécies típicas desses sistemas, e outras que passam apenas parte dos seus ciclos de vida.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) desde 1980 o planeta perdeu cerca de 3,6 milhões de hectares de mangues. Os índices nacionais são considerados alarmantes visto que, só no Espírito Santo, são destruídos, em média, 100 hectares de manguezais por ano.
Em 2007, o manguezal denominado de Estação Ecológica do Lameirão (tombado como Reserva Ecológica na década de 80), situado ao entorno da UFES, perdeu cerca de dois quilômetros, ou seja, 200 hectares; extensão considerada de alto impacto ambiental devido à sensibilidade do ecossistema.
O aterro do manguezal para a expansão da Avenida Fernando Ferrari fere a Lei Federal n°4.771, 15/09/1965, que considera o manguezal área de preservação permanente e reserva biológica “em toda a sua extensão” (CONAMA, n°004, 18/09/1985).
O mangue destruído para a ampliação da Avenida fez parte de uma rede de proteção à baía de Vitória. Ele funcionava como filtro e barreira natural para a ilha em relação ao mar. Segundo os ambientalistas, esta obra constitui-se um crime uma vez que os licenciamentos são discutidos entre "quatro paredes" e não contam com a participação da população.
Na baía de Vitória, área de extrema importância sócio-econômica no Estado, intensificou-se, ao longo dos últimos cinqüenta anos, intervenções sempre pautadas no crescimento urbano e no desenvolvimentismo. Neste processo, o perigo de uma rasa discussão ambiental reflete-se na sutileza das ações governamentais ante à exploração mineral, à especulação imobiliária e à pressão da indústria automobilística.
O governo tem poupado custos com desapropriações de imóveis porque sua concepção de desenvolvimento sustentável é frouxa quando comparada à parcerias particulares efetivadas por ele. Podemos nos perguntar porque não desconstruir a malha comercial existente do lado oposto da avenida?. Isto pode soar como impossível e certamente assim foi concluído, já que no local estão importantes representantes como a Petrobrás e o McDonald’s. Sabemos que a topografia do local é complexa, contudo o compromisso com o desenvolvimento sustentável e com à sobrevivências das gerações futuras, sejam elas animais ou vegetais, precisa ser firme.
A suposta necessidade de ampliação de uma avenida para o desafogamento do trânsito de Vitória fala de uma opção de investimento feita pelo Governo do Estado. Se o objetivo principal é a mobilidade populacional é possível investir nos aquaviários já que o mar é uma via pronta e gratuita. Também a proximidade entre os bairros de Vitória permite a construção de ciclovias que contribuiriam para a diminuição de veículos particulares e coletivos; afirmando uma forma menos agressiva de expansão como são as estradas asfaltadas.
No impasse do trânsito em Vitória, o maior manguezal urbano do mundo teve sua relevância avaliada secundariamente em relação aos carros! Nossas escolhas, refletem qual equilíbrio queremos para a sociedade hoje, qual qualidade queremos para a cidade na qual habitamos, e qual a nossa responsabilidade com os resultados biopsicossociais que colheremos em um curto espaço de tempo.