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Ao fim de um longo dia, com os ossos cansados e os olhos soterrados pela poeira e pelo asfalto, algo me diz que é preciso ter fome, fome de viver, para não fenecermos e para continuarmos andando, para não engolirmos em seco a morte, a miséria e a opressão, para não nos desgostarmos de tudo e nos tornarmos cínicos insuperáveis e céticos vazios e autodestrutivos.
Vivo num mundo de permanentes milagres: que meu coração pulse, que a pele dela seja mais quente que o sol, que o vento acaricie as árvores e que um olhar nunca seja igual ao outro; que a vida flua em mim em abundância apesar dos meus fantasmas, das minhas chagas e das minhas dores; que um convalescente encontre forçar para sorrir, que a moça triste tenha encontrado seu amor, que o menino pobre tenha conseguido sonhar com dias melhores; que exista alguma coisa e não nada, que as coisas sejam do jeito que são e não de outra forma: eis aí o milagre.
Quando é que deixamos de nos maravilhar com o mundo? Quando é que nossa pele ganha o verniz embrutecedor que nos dessensibiliza, e nossos olhos nada vêem a não ser a falta das coisas, o lado manco e fraturado de nós todos?Quando é que nós deixamos de buscar a vida nas mínimas coisas, embaixo das pedras, no zumbido das moscas e nas ondas do mar?Quando é que as pessoas se demitem da própria vida e sufocam essa luz que emana de nossos rostos e que não tem outro nome a não ser a própria vida?
Por onde olho quando me movo vejo coisas tão assombrosas que simplesmente não consigo entender o porquê da necessidade de Deus. O que há já não basta?Ou talvez até entenda: talvez a experiência do absoluto oculto e anônimo seja forte demais para a maioria das almas, daí a necessidade de um anteparo, para que a vertigem da criação seja atenuada, postergada, suavizada. Por onde olho as coisas existem silenciosamente, como se houvessem sido criadas em focos de poiesis infinita e simplesmente sem nenhum sentido dado a priori. A vertigem do mundo é que as coisas existam e se criam apesar de nós.
Que as coisas existam, isso é miraculoso.
E que vocês estejam lendo as minhas palavras e esteja entrando em comunhão com essa prece que em mim habita perenemente, isso também é enigmático.
E que o mundo seja assim, essa bruxeleante criação incessante sem eira nem beira, delicada e louca, é que é desconcertante. O mundo me desconcerta.
Leonardo Barros – Estudante de Psicologia Universidade Federal do Ceará
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Existirmos: a que será que se destina?’
O poético verso acima contém sua própria resposta. De modo algum é meditação metafísica. É rima e outrora foi assim escrita e cantada. Três termos, a existência, o ser e o destino. Forçoso admitir que a existência esteja na terceira pessoa do plural e sendo assim convoca os socius posto que na ordem da sociabilidade podemos deduzir, ou se se quiser, sentir, que o destino fica do lado de uma busca desesperada, para todo e qualquer plano que se deseje. Não é claro que ela (a busca) seja narcísica e hedônica.
O mais minúsculo dos seres, que seja uma ameba, busca o gozo. Se bem que jamais saberemos como ela goza; dado que ela não pode dizê-lo. Para esse desatino desenfreado da impossível relação sexual (que não-existe) conviria encontrar uma data qualquer. Talvez anterior ao advento do século XXI para nos contentarmos com o fim-de-século uma vez que ele coincide com mecanismos de controle dissuasivos e de inibição da proliferação. Leia-se, da prole. Decidamos que seja a queda do Muro de Berlin para exprimir algo que caiu, rebaixado a uma zero potência. Isso bem que poderia ser o Pai, um pai. Qualquer pai se ele é aquele que mostra um caminho.
Mas isso foi no século passado e doravante sabemos que é hic et nuc que se joga a avidez insaciável, aflita e urgente de um encontro com um outro qualquer que viesse suprimir a sensação do buraco, do furo, de pedaços e fragmentação.
Um espelho estilhaçado tingido de sangue é imagem não-retórica, mas as meninas sabem e bem, disso.
Nada aí que escandalizasse a comunidade psi par a par com a queixa –“Cura-me disso.” Mas se trata de um efeito, desde que se localize o desejo ao avesso. Alguém queria ver nisso a cisão (Spaltung) da esquizofrenia que, muito bem, desvanece os parceiros e daí pode bem gozar sem eira nem beira, autística, puro espelho. Convencionou-se, em bom e claro psicologuês, denominar isso de limites; no gosto popular, no gosto da plebe rude: -“Mas, ora, tem que por limites!” Quem, cara pálida, quem tem que fazer isso? Donde você tirou essa legalidade mais ainda aderida ao seu próprio corpo numa anatomia de puro acaso dado que você jamais pode escolher ou sequer pensar sua própria sexuação. Isso se encontra do lado da existência e do ser. Algo que um velho e antigo sábio chamou de mal-estar ou a civilização e seus descontentes. É que lhe era indiferente sobre qual infra-estrutura de produção circulava os fatos da energética. Todavia do lado da infra-estrutura da produção jamais foi indiferente o destino dos seres sexuados. Aí sim a energética conta posto que se a matriz de energia falha cessa o funcionamento, por absoluta ausência e impossibilidade de fontes de energia, do existir e dos seres que o compõem como um conjunto finito. Realiza-se desse modo um destino inscrito dentro das possibilidades por ele criadas. Entenda-se, lá no começo estava a realização do destino. Impossível que seja de outro modo quando do lado do ser o gozo seja partilhado como sexuado e copulativo; o que mais não é do que mera predestinação da vida. Se e somente se a vida co-habita com o desejo. Cessa o desejo cessa a vida. Causa, cessante, cessat effectus. Sem chance.
Juan P. Pereira (Professor do Departamento de Psicologia da UFES)