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A Vida...

 Grita e Ecoa.
Mas ainda Grita.

Quero ser o Grito
que a Vida Ecoa em mim.

Quero ser o Grito
que silencia meus excessos de ecos.

Felipe Corrêa

A má sorte do homem     

Certos desejos, nóias e paranóias femininas existem, mas como são femininos têm todo um respaldo literário, romântico, psicanalítico, sócio-histórico, intelectualóide, feminino, até mesmo masculino, etc.

Já os desejos, nóias e paranóias masculinos são sempre algo passível de culpa se deixam uma mulher triste.

Felipe Corrêa

Coisas oníricas

De repente a minha gata de estimação captura um passarinho filhote.

No mesmo momento eu corro para tentar salvar o passarinho, mas a gata me percebe e sai voando com o passarinho em sua boca para o outro lado da rua, perto de uns arbustos que abraçavam a base de um poste.

Atravessei correndo a rua para alcançar e socorrer o passarinho, mas quando os alcancei eu percebi surpreso que a minha gata havia se transformado num pássaro e o passarinho que estava em suas presas havia se transformado num roedor muito parecido com um rato.

Fiquei então bastante aliviado de a presa ser um rato, e não um passarinho filhote, ainda que um pouco estranhando que o pássaro que estava comendo o rato não fosse uma ave de rapina...

Felipe Corrêa

Do Amor


Às vezes amar dá um gosto de azia na boca...
Dá até vontade de nem sei o quê.

Certas fraquezas infantis aparecem
e deixam todo envergonhado
o homem que pretendia ser.

Felipe Corrêa

 

Meu Querido Plutao

Mas tenho pensado um bocado no Plutão...
Você viu? Ele morreu! Mataram ele!
O que farei agora? O que faremos?

Desde pequeno eu tinha um planeta!
Todos nós tínhamos! Pare para pensar.
As próximas gerações não terão Plutão!

O que me chamava a atenção nele
é que ele era pequenino.
Como o planeta do pequeno príncipe.

Agora toda a minha geração
tem algo em comum com o Petit Prince...
Isso é lindo!

Mas tem uma coisa.
Assim que todos nós nos formos.
Quando Saturno nos levar,
então Plutão deixará mesmo de existir... 

Junto com toda uma geração
de pequenos príncipes...
Para sempre.

Outra coisa.
Sou escorpiano.
Plutão era o meu regente.

Percebe como isso tudo
é profundamente lamentável?
Mais um invariante que se foi...

Felipe Corrêa

 

O que Ela quer?

Ela quer é ser pega de jeito.
Com força! E com jeito.

Ela quer é ser agarrada de repente.
Por braços fortes e infinitos e sedentos de seu corpo.

Por que no fundo Ela é Cio.
E é nesse Cio que Ela se vicia.
E o leva leve junto com Ela.

É nesse Cio que todos os membros dele são dela e de nenhuma outra mulher!

É nesse Cio que Ela é dele.
É nesse Cio que os dois são Ela.
É nesse Cio que ele morre.
É nesse Cio que ela é Vida.


E é nesse Cio que Ela se arde.
E ardem também todas as outras genéricas línguas femininas.
Todas invejosas de seu corajoso ventre saliente.

Felipe Corrêa

 

Poética do cotidiano a dois


Ela deitada de leve no ombro dele lhe pergunta:
- Eu tô te pesando muito? Tá machucando?
Ao que ele responde:
- De forma alguma! Se você quiser, pode se deitar ainda mais sobre mim!
Mas não deixa de advertir com um sorriso no canto dos lábios:
- Mas você vai ter de tirar a roupa, se não aí sim ficará pesado...
Ela o chama de bobo e lhe beija os olhos.
Ele sorri feliz lhe segurando os seios...

Felipe Corrêa

 

Sleepless nights 



Não, antes fosse. Durmo com todas elas. A máquina de costura não anda funcionando bem e um mundo inteiro fica todo nu aqui no peito, todo feito de fantasias dolorosas que antes conseguia costurar com versos-muletas e agora é recheio de sonhos que não lembro.
E o peito fundo demais para os olhos não tremerem. E os olhos desajeitados demais pra conseguirem orientar as mãos que tentam segurar a linha e a agulha. E a agulha furando demais os dedos. E o mundo tingido de um sangue de cor imprecisa demais porque o peito é mais fundo que o mundo e o mundo maior que o peito.
Nessas horas a gente vê que a vida não dá liga.
Contornos de cachoeiras e cataratas. É o que tenho em mim. Da rocha aos olhos.
Porque os montes que arranham o azul celeste dos olhos claros repousam impunemente. Duros, distantes e altos demais pra gente conseguir costurar e cobrir com tecidos aveludados de infância.
O vento sim. Ele sempre vai me assoprar desejos de passarinho. Porque o passarinho é fugaz e cheio de ossos atravessados de ar. E eu um monte de moinhos que queriam ser hélices de algo que voa.

 Felipe Corrêa

Verdades vinho à tona...

Verdades vindo à tona...
Verdades vinho à tona...

Tristeza dá sono.
Angustia dá azia.

Preciso de ilusões.
Ilusões domam o tremor dos olhos.
Quem tem coragem de afirmar que precisa de ilusões?

Sem ilusões a vida é cinzas.
Meus olhos não gostam de cinzas.

Lembro que Pessoa perguntou pela cor do sentir.
Eu lhe responderia cinza.
Mas um outro cinza.

O cinza da mistura do branco,
união de todas as cores,
com preto, seu avesso.

Porque sempre há duas sensações.
Aquela que marca a pele
e aquela que escapa.

Estou na busca desse cinza.
Do cinza que é prisma.
Acho até que o encontrei há algum tempo.

E olha que coisa.
Só escrevo esses versos estranhos
Porque pode ser que eu esteja me deixando ser arranhado
por aquilo que pode ser as dores do amor...

Eu não gosto de vinho.

Felipe Corrêa

 


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Poética do Cotidiano
Sleepless nights
Verdades vinho à tona...

 

 

 

 

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